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Encontros entre PT e PCCh, aprofundados por visitas presidenciais e pela Cúpula dos Brics, abordam combate à direita global e regulação da “desinformação”; especialistas e parlamentares expressam preocupações sobre possíveis influências autoritárias.
Por Redação
Aproximações significativas entre a esquerda brasileira, em particular o Partido dos Trabalhadores (PT), e o Partido Comunista Chinês (PCCh) têm se intensificado, transcendendo a esfera comercial para abranger debates ideológicos e estratégias políticas. Estes diálogos, aprofundados pelas recentes visitas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Pequim e pela preparação para a Cúpula dos Brics no Rio de Janeiro (prevista para julho), concentram-se no combate ao avanço de movimentos de direita em âmbito global e no aprimoramento de mecanismos de controle de redes sociais. O cenário levanta preocupações sobre as implicações para a liberdade de expressão e a democracia no Brasil.
A intensificação da proximidade ideológica é pavimentada por um robusto intercâmbio entre lideranças petistas e chinesas, incluindo a realização de seminários teóricos e a designação de 2026 como o “Ano da China no Brasil”. Em eventos como o 8º Seminário Teórico entre PT e PCCh, ocorrido em Brasília em junho, a união de forças contra o que os partidos denominam de “extrema direita” e o enfrentamento às “fake news” foram temas centrais. Tais discussões, contudo, provocam questionamentos por parte de especialistas e parlamentares, que apontam potenciais contradições na defesa da democracia por parte do PT ao dialogar com uma nação autocrática como a China.
Desde o início de seu mandato atual, o presidente Lula realizou duas visitas à China, em abril de 2024 e maio de 2025, além de ter recebido o líder chinês Xi Jinping em Brasília no final do ano passado. Em uma dessas ocasiões, Lula teria solicitado a Xi Jinping o envio de uma pessoa “de confiança” para tratar da “liberdade de expressão” no Brasil, um gesto que gerou repercussão. Os partidos defendem o multilateralismo e uma ordem internacional baseada na cooperação entre países do Sul Global, com foco na proteção de instituições internacionais e no controle da “desinformação”. Paralelamente, a China é amplamente reconhecida por sua rigorosa censura na internet (o chamado “Grande Firewall”) e por campanhas de desinformação estatal.
Analistas de Relações Internacionais, como Fábio Ramos, consideram que esta aproximação ideológica, caso mantida de forma explícita, seria um fato inédito, dada a política externa chinesa historicamente pragmática, mais focada em interesses econômicos e geopolíticos do que em alinhamentos ideológicos com regimes específicos. Ramos enfatiza que o PCCh tem como prioridade expandir seu poder econômico e tecnológico, utilizando seu “soft power” para fortalecer sua imagem global. Esse processo inclui a expansão dos Institutos Confúcio.
Estes Institutos Confúcio, com 12 unidades no Brasil, são oficialmente organizações criadas pelo governo chinês para promover a língua e a cultura chinesa. Contudo, são vistos por críticos como ferramentas de influência política e, em alguns casos, de espionagem cultural, capazes de comprometer a liberdade acadêmica. Em 2020, a Human Rights Watch confirmou que os Institutos Confúcio integram uma estratégia mais ampla para moldar a percepção global sobre a China, frequentemente às custas de censura e controle ideológico.
No âmbito econômico, apesar de a China ser o maior parceiro comercial do Brasil (com exportações brasileiras totalizando aproximadamente US$ 188 bilhões em 2024), economistas como Rui São Pedro alertam que o nível de aproximação entre os partidos não deveria exceder a diplomacia de Estado a ponto de se configurar como uma aliança ideológica. “Resta saber até que ponto esse alinhamento é estratégico e pragmático (ou se representa, de fato, uma inclinação a importar aspectos da governança para a realidade brasileira)”, questiona São Pedro.
A conjuntura política atual, marcada por atritos comerciais entre Estados Unidos e China e pela aliança da direita brasileira com o ex-presidente Donald Trump, pode, em parte, explicar o movimento chinês em direção a parceiros ideológicos. No entanto, especialistas como o sociólogo Marcelo Almeida criticam a postura do PT de tratar o PCCh como referência em ética política e liberdade de expressão, considerando o histórico de censura e repressão interna na China.
Há um consenso entre estudiosos de China de que Xi Jinping, no poder desde 2012, representa uma linha mais rígida e autoritária. Ele rompeu com o modelo de liderança coletiva de seus antecessores, adotando uma política mais personalista, ideológica e nacionalista, com repressão interna sem precedentes.
Em debates recentes, o secretário-geral nacional do PT, deputado federal Henrique Fontana, defendeu que o Brasil e a China devem reagir em conjunto ao que classificou como avanço de ideais autoritários. No entanto, essa postura tem sido veementemente criticada por parlamentares da oposição. O deputado federal Ubiratan Sanderson (PL-RS) afirmou que a aproximação com o PCCh “significa permitir a entrada da censura e do autoritarismo no Brasil”.
Líderes do PT, como José Maria Silva Moreira, da Secretaria Nacional de Comunicação, têm argumentado à cúpula do PCCh sobre a existência de uma “indústria da mentira” nas redes sociais brasileiras, indicando a necessidade de cooperação para a regulação. Críticos, como o deputado federal Rodrigo Valadares (União-SE), veem nessa retórica o risco de abertura de brechas para a incorporação de modelos de censura e controle de conteúdo digital inspirados na China.
A parceria entre PT e PCCh não é recente, remontando aos anos 1980 e 1990, e foi formalizada em 2023 com a assinatura de um protocolo de cooperação que prevê intercâmbio de delegações e programas de formação. Além disso, temas sensíveis como a regulação de Inteligência Artificial foram discutidos no 11º Fórum Parlamentar do Brics em Brasília, com representantes de países, em sua maioria não democráticos, propondo diretrizes. O advogado Luiz Augusto Módolo, doutor em Direito Internacional, alerta para a contradição de nações conhecidas por censura e vigilância em massa se apresentarem como protagonistas de um debate sobre regulação responsável e respeito à privacidade. “Falar em transparência e inclusão quando muitos desses regimes mantêm presos políticos, controlam mídias e reprimem dissidências é, no mínimo, contraditório”, afirma Módolo, sugerindo que a regulamentação, nesse contexto, pode ser um sinônimo de controle.
Com informações da Gazeta do Povo

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