
Quando o Brasil evita encarar o racismo, a história, a sociologia e a música da resistência lembram: já passou da hora de abrir os olhos.
por Daniel Trindade
O Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, expõe as contradições profundas de um país que insiste em repetir a narrativa da “democracia racial” enquanto convive com indicadores de desigualdade que afetam majoritariamente a população negra. Em um cenário marcado pelo racismo estrutural, a data funciona como alerta social, político e histórico um chamado para encarar o que o Brasil ainda prefere esconder.
A discussão é urgente porque revela a persistência de um sistema que produz exclusão, naturaliza violências e impede avanços reais na igualdade racial. Os dados mostram que cor e classe permanecem entrelaçadas, reforçando a necessidade de revisão crítica das estruturas que formam o país desde a escravidão. A Consciência Negra, portanto, é menos uma celebração e mais uma convocação para reconhecer a dívida histórica que o Brasil tenta minimizar.
Carlos Drummond de Andrade escreveu que “há certo gosto em pensar bem das coisas, mesmo quando elas vão mal”, verso que traduz a tendência brasileira de suavizar problemas profundos. Esse autoengano também aparece no debate racial: é mais fácil acreditar em harmonia do que confrontar privilégios e injustiças mantidas por séculos.
Nesse cenário, a sociologia evidencia o que muitos evitam admitir: as desigualdades raciais não são fruto do acaso, mas de políticas e práticas históricas que produziram barreiras para a população negra. A marginalização urbana, o acesso desigual à educação, a violência policial e a exclusão econômica revelam como o racismo estrutura oportunidades.
É impossível discutir consciência racial sem citar Abdias Nascimento, um dos maiores ativistas do país. Abdias defendia que não há democracia enquanto o Brasil não reconhecer a centralidade da cultura negra em sua formação e enquanto continuar naturalizando a exclusão dos mesmos corpos que ajudaram a erguer sua história. Para ele, consciência racial é projeto político, não apenas memória.
Essa reflexão dialoga diretamente com o simbolismo da resistência presente na música de Geraldo Vandré, especialmente nas frases que você trouxe, como “caminhando e cantando e seguindo a canção”, que evocam mobilização coletiva; “somos todos iguais, braços dados ou não”, que ressoa com a luta por equidade; e o poderoso chamado “vem, vamos embora, que esperar não é saber”, que sintetiza a urgência da ação diante da opressão. Esses versos, escritos durante a ditadura militar, dialogam com a luta histórica da população negra contra a violência de Estado, o silenciamento e a exclusão.
No Dia da Consciência Negra, reconhecer essas camadas históricas é fundamental. Não basta lembrar Zumbi, Dandara e os quilombos. É preciso admitir que a desigualdade racial segue estruturando relações sociais, políticas e econômicas. A data exige responsabilidade: repensar o país, confrontar privilégios e transformar estruturas que perpetuam o racismo.
Drummond nos lembra que ilusões não mudam a realidade. E, diante do tema racial, essa verdade é ainda mais urgente. A democracia brasileira só será plena quando a cor da pele deixar de definir quem vive sob proteção e quem vive sob risco.
A consciência é o primeiro passo. A coragem de agir, o segundo. E como já cantou Vandré, em trecho que atravessa gerações: “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.

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Daniel Trindade
Editor-Chefe do Portal de Notícias
Ativista Social|Jornalista MTB 3354 -MT
Consultor Político
Estudante Bacharelado em Sociologia
Defensor da Causa Animal em Sinop -MT
Tutor do Stopa "O Cão Mascote"






