Mudanças de posicionamento expõem debate sobre coerência e critérios no cenário político de Mato Grosso
por Daniel Trindade
Em meio ao atual cenário político de Mato Grosso, cresce um debate inevitável: afinal, o que define, de fato, um bolsonarista?
A pergunta ganha relevância diante da postura recente de diversas lideranças que hoje se apresentam como alinhadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, mas que, no passado, mantiveram proximidade, apoio ou até mesmo atuação conjunta com governos de esquerda no Brasil.
O questionamento não é sobre mudanças de posicionamento algo legítimo na política, mas sobre a coerência e, sobretudo, a seletividade com que esse passado tem sido cobrado.
Nesta semana, o jornalista Lúcio Sorge, em comentário no Jornal da Cultura, resumiu o cenário com uma frase que ecoa nas discussões políticas: “pau que bate em Chico não está batendo em Francisco”. A observação chama atenção para um ponto sensível: há dois pesos e duas medidas no julgamento ideológico?
Um exemplo recente envolve a deputada estadual Janaína Riva. Mesmo apresentando bom desempenho nas intenções de voto, ela tem sido alvo de críticas com base em declarações passadas, feitas quando ainda não apoiava Bolsonaro. Em 2022, no entanto, declarou apoio ao então presidente. Ainda assim, setores mais radicais insistem em resgatar posicionamentos antigos para questionar sua legitimidade.
Por outro lado, críticas semelhantes parecem não atingir outros nomes com trajetórias igualmente controversas.
É o caso do atual vice-governador Otaviano Pivetta, que passou por partidos de centro-esquerda, como o PDT (Partido Democrático Trabalhista), onde teve atuação relevante no estado antes de migrar para siglas de centro-direita e direita. Entre os episódios desse período, destaca-se sua atuação como coordenador-geral da campanha de Pedro Taques ao Senado, em 2014, à época filiado ao PDT.
Mais recentemente, Pivetta fez declarações públicas duras contra Bolsonaro, chegando a classificá-lo como “falastrão”, além de criticar a atuação de seus filhos na política. Hoje, no entanto, busca aproximação com o mesmo grupo político.
Já o governador Mauro Mendes também possui registros de proximidade com lideranças da esquerda. Em 2010, quando disputava o governo do Estado, declarou apoio à então candidata Dilma Rousseff, participando de agendas públicas ao seu lado. À época, Mendes era filiado ao PSB, e seu vice era Otaviano Pivetta, então no PDT.
Mais recentemente, em 2024, durante visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Mato Grosso, Mendes voltou a aparecer ao lado do governo federal, chegando a se referir a Lula como “estadista”.
Nesse contexto, também cabe lembrar outros trajetos políticos que reforçam a complexidade desse debate. O deputado federal José Medeiros, atualmente no Partido Liberal, iniciou sua trajetória política como aliado do ex-prefeito de Rondonópolis, Percival Muniz, conhecido por sua proximidade com Lula. Além disso, Medeiros foi presidente municipal do antigo PPS (hoje Cidadania), partido criado em 1992 durante o X Congresso do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ainda sob o impacto do fim da União Soviética e da queda do Muro de Berlim.
Postagens antigas em redes sociais, datadas de 2011, também reforçam essa origem à esquerda. No então Twitter, hoje X, Medeiros chegou a se referir a Jair Bolsonaro como “Bulssonaro”, em críticas relacionadas a temas como racismo e homofobia.
Diante desses fatos, a reflexão se impõe: por que alguns são duramente cobrados por posicionamentos passados, enquanto outros são poupados? Quem define os critérios? Quem pode afirmar que nunca teve, em algum momento, proximidade com a esquerda?
A política democrática pressupõe liberdade de posicionamento, evolução de pensamento e construção de alianças. No entanto, quando o debate passa a ser conduzido por um patrulhamento ideológico seletivo, abre-se espaço para incoerências e disputas internas que fragilizam o próprio campo político.
Afinal, o que pesa mais: o histórico completo ou o posicionamento atual?
E mais: quem decide quem pode ou não mudar?
Em um ambiente político cada vez mais polarizado, talvez o maior desafio não seja definir quem é de direita ou de esquerda, mas garantir que os critérios sejam os mesmos para todos.
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Daniel Trindade
Editor-Chefe do Portal de Notícias
Ativista Social|Jornalista MTB 3354 -MT
Consultor Político
Estudante Bacharelado em Sociologia
Defensor da Causa Animal em Sinop -MT
Tutor do Stopa "O Cão Mascote"







