
Com quase R$ 5 bilhões em recursos públicos, sistema concentra dinheiro em partidos e revela como campanhas em Mato Grosso vão além do que aparece nas contas oficiais.
por Daniel Trindade
As eleições gerais de 2026 devem movimentar cerca de R$ 5 bilhões em recursos públicos por meio do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), conhecido como fundo eleitoral. O dinheiro sai do Orçamento da União, é repassado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e, a partir daí, distribuído aos diretórios nacionais dos partidos políticos, que decidem internamente como dividir os valores entre estados e candidaturas. Esse caminho, pouco visível ao eleitor, é o primeiro passo para entender os bastidores do financiamento político no Brasil — e, de forma particular, em Mato Grosso.
A legislação estabelece que apenas uma pequena parcela do fundo seja dividida igualmente entre todas as siglas. A maior parte do dinheiro segue critérios ligados ao desempenho eleitoral anterior, como votos para a Câmara dos Deputados, tamanho das bancadas e representação no Senado. O resultado é uma concentração significativa de recursos nas maiores legendas, enquanto partidos menores recebem apenas a cota mínima. Na prática, isso significa que poucos diretórios nacionais controlam fatias bilionárias do financiamento público e definem quais candidaturas terão prioridade.
Com base nas projeções feitas a partir do valor previsto no Orçamento e das regras legais, a estimativa de distribuição do fundo eleitoral em 2026 indica que PL, PT e União Brasil devem liderar o recebimento de recursos, somando mais de R$ 2 bilhões. Siglas de médio porte aparecem na sequência, enquanto partidos com baixa representação parlamentar ficam com valores próximos de R$ 3,3 milhões cada.
| Partido | Valor estimado (R$) |
|---|---|
| PL | 886,7 milhões |
| PT | 619,7 milhões |
| União Brasil | 536,4 milhxões |
| PSD | 420,9 milhões |
| PP | 417,2 milhões |
| MDB | 404,5 milhões |
| Republicanos | 343,8 milhões |
| Podemos | 236,5 milhões |
| PDT | 173,8 milhões |
| PSDB | 147,8 milhões |
| PSB | 147,5 milhões |
| PSOL | 126,8 milhões |
| Solidariedade | 88,5 milhões |
| Avante | 72,5 milhões |
| PRD | 71,8 milhões |
| Cidadania | 60,1 milhões |
| PCdoB | 55,9 milhões |
| PV | 45,2 milhões |
| Novo | 37,0 milhões |
| Rede | 35,8 milhões |
| Siglas menores | cerca de 3,3 milhões cada |
Para o eleitor comum, o número absoluto do fundo costuma parecer abstrato. Por isso, uma comparação hipotética ajuda a dimensionar o impacto desses recursos. O Brasil possui atualmente 5.569 municípios. Se o valor global do fundo eleitoral fosse dividido igualmente entre todas as cidades, cada município receberia algo próximo de R$ 900 mil, a depender do valor de referência utilizado.
| Valor total do fundo | Valor médio por município |
|---|---|
| R$ 5,0 bilhões | R$ 897.827 |
| R$ 4,9 bilhões | R$ 879.871 |
| R$ 4,96 bilhões | R$ 890.820 |
Embora essa divisão não exista na prática, a comparação é frequentemente usada no debate público para mostrar o tamanho do montante envolvido. Valores dessa ordem, se aplicados localmente, poderiam financiar ações como ampliação da atenção básica em saúde, melhorias em escolas, pavimentação urbana ou reforço de políticas sociais, especialmente em municípios pequenos.
Em Mato Grosso, os bastidores do financiamento ganham contornos próprios. O estado tem 142 municípios, grandes distâncias territoriais e campanhas que exigem deslocamentos constantes, equipes amplas e presença física intensa. A Justiça Eleitoral estabelece tetos máximos de gastos por cargo, que funcionam como limite legal, mas também como referência do custo de campanhas competitivas. Pelos valores divulgados pelo TRE-MT, o limite para deputado estadual gira em torno de R$ 1,27 milhão, enquanto para deputado federal ultrapassa R$ 3,17 milhões. Nas disputas majoritárias, o teto para governador passa de R$ 7,1 milhões, com acréscimo autorizado em eventual segundo turno, e para senador chega a cerca de R$ 3,8 milhões.
Na prática, porém, esses tetos não explicam toda a engrenagem financeira de uma campanha. O limite se aplica apenas ao que é classificado e declarado como gasto eleitoral. Há despesas que, pela própria regulamentação, não entram no teto ou não são tratadas como gasto de campanha, como determinados custos pessoais do candidato e o uso de estruturas partidárias já existentes. Isso ajuda a explicar por que campanhas aparentemente grandes, com intensa presença nas ruas e nas redes, podem declarar valores que parecem incompatíveis com a visibilidade alcançada.
Além disso, partidos costumam operar com estruturas paralelas diretórios, núcleos regionais, militância e redes de apoio que reduzem o volume de despesas registradas diretamente no CNPJ da campanha. Quando há compartilhamento de serviços ou apoio indireto, a identificação e a mensuração desses custos dependem de controles internos e da fiscalização da Justiça Eleitoral, o que nem sempre é simples.
Há ainda um ponto sensível, frequentemente citado por investigadores, especialistas e pelo próprio Judiciário: a existência de recursos não contabilizados, prática ilegal conhecida como caixa dois. Por definição, esses valores não aparecem nas prestações de contas oficiais e, quando ocorrem, são difíceis de comprovar. O tema ganhou novo peso jurídico após decisões recentes que ampliaram as consequências do caixa dois para além da esfera eleitoral, permitindo responsabilização também no campo administrativo, quando há provas. Ainda assim, o caráter oculto desse tipo de gasto impede qualquer estimativa precisa sobre seu impacto real.
Mesmo dentro da legalidade, o fundo eleitoral raramente cobre todos os custos de uma campanha em Mato Grosso. Partidos combinam recursos públicos com doações legais de pessoas físicas, recursos próprios dos candidatos e apoio logístico das siglas. Como a distribuição interna do fundo não é igualitária, candidaturas consideradas mais competitivas concentram recursos, enquanto outras disputam espaço político com orçamentos mínimos ou simbólicos.
O próprio processo eleitoral tem custo elevado. A Justiça Eleitoral estima que a realização das eleições gerais de 2026 em Mato Grosso demandará cerca de R$ 21,7 milhões, valor que cobre desde logística e tecnologia até a manutenção de zonas eleitorais espalhadas por todo o estado. Esse dado reforça que o sistema eleitoral envolve não apenas o financiamento das campanhas, mas também uma estrutura pública complexa para garantir a votação e a apuração.
À medida que as eleiçoes de 2026 se aproxima, o fundo eleitoral e os gastos de campanha voltam ao centro do debate. Para o eleitor, compreender como o dinheiro circula do Orçamento da União aos diretórios partidários, das prestações de contas oficiais aos custos que ficam fora do radar é fundamental para avaliar a disputa política de forma mais crítica. Mais do que números, os bastidores do financiamento revelam quem tem acesso aos recursos, como se constrói uma candidatura competitiva e por que o custo do poder segue sendo um dos grandes desafios da democracia brasileira, especialmente em estados como Mato Grosso.
*Eleições 2026: acompanhe nossa cobertura e fique ligado em tudo o que acontece nos bastidores da disputa política em Mato Grosso e no país.
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Daniel Trindade
Editor-Chefe do Portal de Notícias
Ativista Social|Jornalista MTB 3354 -MT
Consultor Político
Estudante Bacharelado em Sociologia
Defensor da Causa Animal em Sinop -MT
Tutor do Stopa "O Cão Mascote"








