Hospital que atende 35 cidades pode ter gestão transferida enquanto aumentam dúvidas sobre vaga zero, pronto-socorro e atendimento de pacientes graves
Da Redação
Quando uma ambulância sai de uma cidade do Norte de Mato Grosso com um paciente em estado grave, o destino mais comum costuma ser o Hospital Regional Jorge Abreu, em Sinop.
É para lá que seguem vítimas de acidentes, pacientes que precisam de UTI, neurocirurgia, cirurgias urgentes e atendimentos de alta complexidade que hospitais municipais e UPAs da região não conseguem absorver.
Hoje, boa parte dessas transferências acontece por meio da chamada vaga zero, mecanismo utilizado para garantir encaminhamento imediato de pacientes críticos quando municípios não possuem estrutura suficiente para atendimento.
Na prática, é esse sistema que evita que pacientes permaneçam por horas aguardando vagas em corredores de UPAs e hospitais municipais sem estrutura de alta complexidade.
Por isso, a decisão do Governo de Mato Grosso de transferir a gestão do Hospital Regional de Sinop ao Consórcio Público de Saúde Vale do Teles Pires passou a provocar preocupação crescente dentro da própria rede pública estadual.
O temor envolve justamente o que poderá acontecer caso o pronto-socorro, a regulação de pacientes ou o fluxo da vaga zero sofram alterações após a mudança de gestão.
Profissionais da saúde e gestores municipais demonstram receio de aumento da pressão sobre hospitais já superlotados, demora maior por leitos e dificuldades no encaminhamento de pacientes graves.
O Hospital Regional de Sinop atende atualmente 35 municípios da macrorregião Norte e alcança uma população estimada em mais de 869 mil habitantes, funcionando como uma das principais estruturas de sustentação do SUS no interior do estado.
A assinatura da ordem de serviço para transferência da gestão está marcada para o próximo dia 25, no Palácio Paiaguás, em Cuiabá, com participação prevista do governador Otaviano Pivetta e do secretário estadual de Saúde, Juliano Melo.
A mudança ocorre em meio a uma sequência de desgastes envolvendo a saúde estadual desde que Pivetta assumiu oficialmente o comando do Governo de Mato Grosso, em abril.
O primeiro grande desgaste ocorreu no dia 23 de abril, quando o Hospital Regional de Colíder foi interditado pela Vigilância Sanitária Estadual após inspeções apontarem irregularidades sanitárias graves.
Dias depois, relatórios ampliaram a crise ao apontar 228 irregularidades estruturais e operacionais na unidade, incluindo falhas em UTI, materiais enferrujados, presença de pragas e problemas no armazenamento de resíduos biológicos.
Enquanto o caso de Colíder ainda repercutia, o governo oficializou, em 25 de abril, mudanças no modelo do Samu em Mato Grosso.
O desligamento de 56 profissionais da saúde e a proposta de substituir equipes médicas civis por atuação ligada ao Corpo de Bombeiros provocaram reação imediata de sindicatos, entidades médicas, parlamentares e servidores.
A pressão aumentou após questionamentos do Ministério da Saúde e, três dias depois, em 28 de abril, o próprio governo passou a admitir a possibilidade de recontratação dos profissionais desligados.
No dia 1º de maio, veio o recuo oficial e a confirmação da recomposição das equipes.
Três crises na saúde pública em menos de dois meses. Agora, a mudança prevista para o Hospital Regional de Sinop passou a ampliar ainda mais a preocupação dentro da rede pública estadual.
O hospital funciona em uma área cedida pelo município de Sinop ao Estado em 2011 para implantação e funcionamento da unidade hospitalar estadual.
O próprio documento de cessão menciona o modelo de gestão hospitalar apresentado pelo Estado na época, baseado em Organização Social de Saúde (OSS).
Desde então, o Governo de Mato Grosso passou a utilizar OSS para administrar hospitais regionais por meio de chamamentos públicos com exigências técnicas, operacionais e financeiras rigorosas.
Em processos anteriores, entidades interessadas precisaram comprovar experiência hospitalar, capacidade financeira, estrutura administrativa e histórico de atuação em unidades de média e alta complexidade.
No caso de Sinop, porém, a futura gestão ficará sob responsabilidade do Consórcio Público de Saúde Vale do Teles Pires.
A mudança levantou dúvidas sobre os critérios técnicos utilizados, sobre a experiência operacional da entidade e sobre a ausência de explicações públicas detalhadas em relação ao funcionamento futuro do hospital.
O debate aumentou ainda mais após comparação com outro processo conduzido pela própria Secretaria de Estado de Saúde.
O Chamamento Público nº 003/2026, destinado à gestão do Hospital Estadual do Alto Tapajós, exige experiência hospitalar comprovada e veta expressamente a participação de consórcios na administração da unidade.
A diferença entre os modelos ampliou a cobrança por esclarecimentos públicos sobre os critérios adotados em Sinop e sobre como ficará o atendimento da população após a mudança.
Até o momento, seguem sem resposta pública ampla temas considerados essenciais para pacientes e municípios da região: manutenção integral do pronto-socorro, funcionamento da vaga zero, fluxos de regulação, metas assistenciais, capacidade operacional da futura gestão e mecanismos de fiscalização do contrato.
Em um estado onde a saúde pública acumula recuos, interdições e mudanças estruturais desde abril, a discussão sobre o Hospital Regional de Sinop deixou de ser apenas administrativa.
Para quem depende exclusivamente do SUS, a principal preocupação passou a ser se continuará existindo vaga quando a próxima ambulância chegar ao hospital.
Termo de cessão :
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