Screenshot
Universidade detalhou cronologia de medidas internas após pressão nas redes; caso envolve ameaças, misoginia e investigações da Polícia Civil e do Ministério Público
Da Redação
O caso da chamada “lista de estupráveis” envolvendo estudantes da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá, ganhou repercussão nacional neste fim de semana após publicações do influenciador Guilherme Pallesi viralizarem nas redes sociais cobrando punições mais rígidas aos envolvidos.
Com mais de 1,2 milhão de seguidores no Instagram, Pallesi publicou inicialmente um vídeo criticando a permanência dos alunos investigados na instituição, cobrando expulsão definitiva e exibindo imagens de um estudante apontado nas denúncias e do pai dele, citado por universitários como o homem que teria ameaçado colegas dentro do campus.
Na publicação, o influenciador afirmou ter sido procurado por alunas mencionadas nas conversas investigadas. Segundo ele, algumas universitárias relataram medo, abalo emocional e abandono das atividades acadêmicas após a repercussão do episódio.
Horas depois da forte repercussão nas redes sociais, a UFMT divulgou uma nota oficial detalhando a cronologia das medidas adotadas desde o início das denúncias, incluindo abertura de procedimento disciplinar, afastamento preventivo de estudante, reforço na segurança do campus e suspensão temporária de aulas presenciais.
Após a manifestação da universidade, Pallesi publicou um segundo vídeo afirmando que a resposta institucional apresentada pela UFMT havia sido “protocolar” diante da gravidade do caso.
A crise começou após a circulação de mensagens atribuídas a estudantes com comentários de violência sexual contra mulheres e referências a um suposto “ranking” de universitárias consideradas “estupráveis”.
Nas conversas divulgadas, investigados mencionavam frases como “bora depois fazer ranking de alunas mais estupráveis dos nossos cursos”, além de comentários envolvendo estupro e violência sexual contra estudantes.
Os prints atribuídos ao grupo envolveriam alunos de cursos como Direito, Engenharia Civil e Ciência da Computação.
A divulgação das mensagens provocou protestos no campus, manifestações estudantis, cobranças públicas da Ordem dos Advogados do Brasil em Mato Grosso (OAB-MT) e abertura de investigações pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT).
O caso também provocou manifestações de parlamentares estaduais. O presidente da Assembleia Legislativa, Max Russi, e a deputada estadual Janaina Riva defenderam punição rigorosa aos envolvidos e cobraram medidas para impedir que episódios semelhantes se repitam dentro do ambiente acadêmico.
Segundo a UFMT, a instituição foi comunicada oficialmente sobre o caso em 4 de maio, após denúncia encaminhada pelo Centro Acadêmico de Direito. A partir daquele momento, foram iniciados procedimentos internos de acolhimento e apuração por meio de setores como Ouvidoria, Secretaria de Direitos Humanos, Pró-Reitoria de Assistência Estudantil e unidades acadêmicas envolvidas, incluindo reuniões com estudantes e abertura de procedimento disciplinar interno.
Paralelamente, o Ministério Público passou a acompanhar o caso e solicitou informações formais sobre as providências adotadas pela universidade.
A crise ganhou novo capítulo em 13 de maio, quando universitários denunciaram intimidações dentro do campus de Cuiabá.
Conforme relatos registrados na Polícia Civil, um homem identificado como pai de um dos acadêmicos investigados teria ameaçado estudantes de Engenharia Civil ao afirmar que, caso o filho não se formasse, “os demais também não se formariam”.
Após o episódio, universitários procuraram a delegacia acompanhados por advogado para registrar boletim de ocorrência. Segundo a própria UFMT, o diretor da Faculdade de Arquitetura, Engenharia e Tecnologia (Faet) acompanhou os alunos até a Polícia Civil.
Na mesma data, a universidade informou ter solicitado reforço da segurança interna e apoio da Polícia Militar para atuação dentro do campus.
As aulas teóricas do primeiro semestre de Engenharia Civil passaram temporariamente para o formato remoto entre os dias 14 e 18 de maio. Já as atividades práticas foram suspensas para reposição posterior.
Em 14 de maio, a UFMT instaurou Comissão de Inquérito Disciplinar Discente para apurar os fatos na Faculdade de Direito e na Faculdade de Arquitetura, Engenharia e Tecnologia.
A instituição também confirmou o afastamento preventivo de um estudante de Engenharia Civil. Segundo a nota oficial, ele passou a cumprir atividades acadêmicas em regime domiciliar e ficou proibido de frequentar espaços da universidade ou manter contato com possíveis testemunhas durante as apurações.
O caso segue sendo investigado pela Polícia Civil, incluindo a Delegacia Especializada de Defesa da Mulher (DEDM).
A repercussão nacional ampliou um debate que já vinha sendo levantado em Mato Grosso desde as primeiras denúncias: a misoginia em ambientes universitários e a dificuldade de enquadramento penal desse tipo de conduta.
Atualmente, a misoginia ainda não é tipificada como crime específico na legislação brasileira. Por isso, investigações desse tipo costumam envolver outros possíveis enquadramentos, como ameaça, perseguição, injúria e incitação ao crime.
O episódio ocorre enquanto tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei 896/2023, aprovado pelo Senado e atualmente em análise na Câmara dos Deputados. A proposta prevê equiparar crimes motivados por misoginia à Lei do Racismo, tornando esse tipo de prática inafiançável e imprescritível.
O caso também se conecta a um cenário mais amplo de violência contra mulheres em Mato Grosso. O estado registrou 53 feminicídios no último ano e mantém taxa de 2,6 assassinatos para cada 100 mil mulheres, o dobro da média nacional. Apenas no primeiro quadrimestre de 2026, foram contabilizados 498 casos de estupro, segundo dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT).
Dentro da própria UFMT, a tensão também reacendeu a memória do assassinato de Solange Aparecida Sobrinho, estuprada e morta dentro do campus em 2025. O crime voltou a ser citado por estudantes após a divulgação das mensagens investigadas.
Na nota divulgada neste sábado, a UFMT afirmou repudiar qualquer forma de violência, misoginia, discriminação e assédio moral. A universidade declarou ainda que adotará as medidas cabíveis após a conclusão das apurações internas e policiais.
Leia também
MPE assume investigação criminal sobre “ranking de estupro” na UFMT; aluno é afastado
https://deixaqueeuteconto.com.br/mpe-assume-investigacao-criminal-sobre-ranking-de-estupro-na-ufmt-aluno-e-afastado/
UFMT suspende aulas após alunos denunciarem ameaças ligadas à “lista de estupráveis”
https://deixaqueeuteconto.com.br/ufmt-suspende-aulas-apos-alunos-denunciarem-ameacas-ligadas-a-lista-de-estupraveis/
UFMT afasta aluno por ranking de estupráveis e caso reacende debate sobre misoginia
https://deixaqueeuteconto.com.br/ufmt-afasta-aluno-por-ranking-de-estupro-na-ufmt-aluno-e-afastado/
Redação
Este é o seu portal de notícias da nossa região. No nosso site, você encontra as informações mais relevantes e atualizadas sobre tudo o que acontece por aqui. Nossa missão é manter você informado com conteúdos de qualidade, escritos por colaboradores que conhecem a fundo a realidade local.



