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Maioria dos abusos sexuais infantis em MT acontece dentro da própria família

Avatar photo Redação 17 de maio de 2026 4 min read

Estado registrou 526 casos em quatro meses; subnotificação e medo de denunciar preocupam autoridades

Da Redação

Mato Grosso registrou 526 casos de estupro contra crianças e adolescentes de até 17 anos entre janeiro e abril deste ano, segundo dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp-MT). A maior parte dos abusos, conforme autoridades e profissionais da rede de proteção, acontece dentro do próprio círculo familiar da vítima.

O cenário reacende o alerta às vésperas do Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, marcado nesta segunda-feira (18).

No Brasil, a média chegou a 150 casos de estupro de vulnerável por dia apenas no primeiro trimestre de 2026, conforme levantamento do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Em dez anos, os registros nacionais mais que triplicaram, passando de 19,4 mil casos em 2015 para mais de 59 mil em 2025.

O delegado Ramiro Mathias Ribeiro Queiroz, titular da Delegacia Especializada de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Deddica), afirma que a maioria dos abusadores faz parte da convivência da vítima.

“Na maioria dos casos, os abusadores estão no círculo de convivência ou familiar da vítima. Pode ser o pai, o padrasto, o avô, o tio. Inúmeros casos chegam aqui envolvendo familiares”, afirmou.

Segundo o delegado, muitas vítimas atendidas pela especializada têm entre 8 e 11 anos de idade. Para ele, o estupro de vulnerável está entre os crimes mais graves investigados pela polícia.

Dados da Sesp apontam ainda que Mato Grosso registrou, em 2025, 1.666 casos de estupro de vulnerável envolvendo crianças de até 13 anos e outros 670 casos de estupro contra adolescentes entre 14 e 17 anos.

O promotor de Justiça da Infância e Juventude de Cuiabá, Paulo Henrique Amaral Motta, afirma que a subnotificação continua sendo uma das principais dificuldades no enfrentamento desse tipo de crime.

“Ainda existe uma subnotificação considerável. E isso ocorre por diversos fatores, tanto pelo medo e pela dependência emocional de muitas vítimas, quanto pelo desconhecimento de parte da população sobre como denunciar”, disse.

A psicóloga Gina Coelho, que atua no atendimento de crianças e adolescentes, afirma que a relação de confiança com o agressor costuma dificultar o pedido de ajuda e até a compreensão da violência sofrida.

“A criança enxerga essa pessoa próxima, que pode ser um vizinho, um primo mais velho, o padrasto ou até o próprio pai, como uma figura de proteção. Isso faz com que ela fique confusa”, afirmou.

Segundo João Henrique Magri Arantes, analista da Deddica, muitos casos começam com aproximação gradual, manipulação emocional e pedidos de segredo, dinâmica que dificulta a denúncia e prolonga o silêncio das vítimas.

Além dos casos ocorridos dentro de casa, autoridades também demonstram preocupação com o crescimento de crimes sexuais praticados pela internet.

No fim de abril, a Polícia Federal e as polícias civis deflagraram a Operação Cesin, voltada ao combate à exploração sexual infantil em ambientes digitais. Em Mato Grosso, foram cumpridos mandados em Cuiabá e Lucas do Rio Verde contra investigados por armazenamento, produção e compartilhamento de arquivos de exploração sexual infantil.

A ação ocorreu simultaneamente em outros 15 países e integra um esforço internacional de combate a crimes sexuais contra crianças e adolescentes praticados pela internet.

Jogos on-line, aplicativos de mensagens e redes sociais aparecem entre os principais ambientes usados para aliciamento de menores.

Mudanças bruscas de comportamento podem servir de alerta para familiares, professores e responsáveis. Queda no rendimento escolar, isolamento repentino, medo excessivo, agressividade incomum, alterações no sono e resistência em frequentar determinados lugares estão entre os sinais observados pela rede de proteção.

Em casos de suspeita, a orientação é acolher a criança, evitar pressioná-la durante o relato e procurar ajuda imediatamente.

Na rede pública de saúde, os atendimentos também acenderam alerta. Entre dezembro de 2025 e abril deste ano, o Hospital e Pronto-Socorro Municipal de Cuiabá registrou 17 atendimentos de crianças e adolescentes. Desse total, 11 envolveram abuso sexual.

O protocolo da unidade inclui acolhimento psicológico imediato, notificação às autoridades, acionamento do Conselho Tutelar e encaminhamento para acompanhamento especializado.

As denúncias podem ser feitas pelo Disque 100, pelo 197 da Polícia Civil, ao Conselho Tutelar da cidade, ao Ministério Público ou diretamente em delegacias. Em situações de emergência, a recomendação é acionar a Polícia Militar pelo 190 e buscar atendimento médico imediato para garantir acolhimento adequado e preservação de possíveis provas.

A discussão ganhou ainda mais repercussão após casos recentes no estado, como a morte de uma menina de 3 anos em Primavera do Leste, investigada pela Polícia Civil como estupro de vulnerável qualificado pela morte.

Com informações do MidiaNews, CNN Brasil e RepórterMT.

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