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Produção busca combater o apagamento histórico e reforça a líder quilombola como “farol” de resistência para mulheres mato-grossenses.
DA REDAÇÃO
No mês da Consciência Negra, o legado da líder quilombola Teresa de Benguela é revisitado em Mato Grosso por meio de um filme desenvolvido há uma década pela cineasta e pesquisadora Danielle Bertolini. A produção, que busca combater o apagamento histórico do protagonismo negro no estado, apresenta Teresa como uma das figuras mais importantes da história mato-grossense e um símbolo de resistência e identidade, especialmente para as mulheres.
A relação da diretora com a personagem teve início em um festival de cinema e se aprofundou por meio de vasta pesquisa histórica, trabalho de campo em Vila Bela da Santíssima Trindade e sua dissertação de mestrado. A falta de conhecimento sobre Teresa gerou em Bertolini a indagação: “como as pessoas não conhecem essa mulher?”.
No século XVIII, Teresa de Benguela esteve à frente do Quilombo do Quariterê, também conhecido como Quilombo do Piolho, um dos mais longevos da América Portuguesa. Sob sua liderança, a comunidade estabeleceu uma estrutura avançada, incluindo um parlamento, organização da produção agrícola, moeda própria e comércio de minérios com espanhóis. Tais feitos tornaram o quilombo um alvo da Coroa Portuguesa. Bertolini ressalta: “Hoje ela já seria considerada revolucionária; naquela época também foi”.
A influência de Teresa é reconhecida até os dias atuais. O dia 25 de julho é celebrado como o Dia de Teresa de Benguela e da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha, data que transcende Mato Grosso. Em 1994, ela foi tema do enredo da escola de samba Unidos do Viradouro, após pesquisa de Joãozinho Trinta no estado. Em Vila Bela, a herança africana é forte e as mulheres locais veem em Teresa um mito, um “farol” de força e resiliência.
Danielle Bertolini enfatiza que outras lideranças também foram e são cruciais para o movimento negro em Mato Grosso. Ela cita a Casa das Pretas, liderada por Antonieta Costa, como um pilar na luta por direitos e cultura afro-mato-grossense, e o Aquilombamento Audiovisual Quariterê, coletivo de profissionais negros do cinema que busca maior representatividade.
A pesquisadora aponta que a luta por identidade e reconhecimento é contínua, necessitando de maior visibilidade. “A gente ainda não se vê completamente como esse povo miscigenado que é o Brasil”, afirma, destacando a necessidade de reconhecer e transformar a estrutura racista existente.
Sobre a percepção da população mato-grossense acerca dessa herança negra, Bertolini é categórica: “Não, não existe essa noção”. Ela ilustra o problema com dados sobre a rede de ensino, informando que, embora o estado tenha 70 escolas indígenas, há apenas 5 escolas quilombolas na rede pública, atendendo a um número significativamente menor de alunos. “Isso mostra o quanto ainda falta para valorizarmos de fato essa herança”, conclui.
No campo cultural, a cineasta observa progressos como as cotas de 50% para pessoas negras e indígenas nos editais da Lei Paulo Gustavo, que começam a corrigir desigualdades. No entanto, sua abordagem vai além da representatividade: “Não quero fazer filmes sobre, quero fazer filmes com”. Seu processo, que ela define como afrofuturista e afrossubjetivo, envolve uma equipe majoritariamente negra e feminina, com o objetivo de questionar o passado, revisitar o presente e imaginar novos futuros.
Intitulado “Somos Teresa”, o filme está em fase final de montagem e traz a perspectiva das mulheres de Vila Bela sobre a líder quilombola, oferecendo uma narrativa que contesta os registros portugueses sobre sua suposta morte. “Elas não acreditam nisso. Dizem que Teresa fugiu, envelheceu e transmitiu seus conhecimentos. Essa história é viva para elas”, revela Bertolini.
A primeira exibição pública da obra está prometida para Vila Bela, entre abril e maio do próximo ano, como um compromisso com as mulheres que colaboraram nas filmagens. A cineasta defende que a escola é o principal caminho para fortalecer a consciência negra em Mato Grosso, pois “se a gente não levar esse debate para as crianças, os preconceitos vão se perpetuar”.
Para Bertolini, a cultura desempenha seu papel, mas é fundamental que “precisamos ensinar nossa própria história. Precisamos nos reconhecer naquilo que somos: um povo miscigenado, com uma herança negra muito forte e ainda pouco valorizada”. Desta forma, Teresa de Benguela mantém sua relevância, não como uma figura histórica distante, mas como um símbolo contínuo de resistência, identidade e futuro para Mato Grosso.

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