
Expedições com pagamento em terra indígena são alvo de apuração; vereador admite participação nas pescarias, mas nega irregularidades
por Daniel Trindade
O IBAMA confirmou que monitora a região do Parque Indígena do Xingu e tem conhecimento das pressões relacionadas à pesca ilegal e à atuação de empreendimentos irregulares na bacia do rio. A manifestação ocorre após denúncia já noticiada pela reportagem, que aponta possíveis práticas de pesca predatória, turismo irregular e exploração de recursos naturais dentro de território indígena, com ligação ao município de Feliz Natal, no norte de Mato Grosso.
De acordo com o documento encaminhado a autoridades, as atividades ocorreriam de forma recorrente nas proximidades das aldeias Morená, Guarujá e Caniné, com organização de expedições de pesca envolvendo não indígenas e possível comercialização dessas experiências. O material aponta ainda que a entrada de visitantes poderia ocorrer mediante pagamento, com eventual anuência local .
Registros analisados pela reportagem mostram grupos reunidos dentro da Aldeia Morená durante pescarias, além da captura de peixes de grande porte, como a piraíba, um dos maiores exemplares de água doce da Amazônia. Em algumas imagens, os animais aparecem fora da água durante fotografias coletivas. Há também registros de peixe boiando aparentemente sem vida após a captura, o que levanta questionamentos sobre a prática de pesca esportiva, modalidade que prevê a devolução do animal ao ambiente.
A denúncia também indica que as atividades seriam divulgadas em redes sociais, inclusive com eventos organizados e vagas limitadas, e que empresários e agentes políticos da região estariam entre os participantes dessas expedições .
Entre os citados está o vereador Remy de Souza Alves Corrêa (PL). Em manifestação anterior à reportagem, o parlamentar negou qualquer irregularidade, mas confirmou participação nas pescarias realizadas na região.
“A pesca esportiva é na Aldeia Morená. Quem faz as pescarias é o indígena Pablo Kamaiura. A gente organiza grupos de amigos que querem ir pescar lá”, afirmou.
O vereador também detalhou a dinâmica das viagens e a cobrança para participação nas expedições.
“É cobrado dependendo da quantidade de dias que nós vamos ficar lá. Se a gente vai ficar cinco dias paga cerca de mil e quinhentos reais. Quando tem alimentação incluída pode chegar a oitocentos reais por dia”, disse.
Segundo ele, o responsável pela operação seria o indígena Pablo Kamaiura, morador de Canarana, que organizaria as atividades e receberia os visitantes interessados. O parlamentar também atribuiu as denúncias a motivações políticas.
A dinâmica descrita na denúncia e nas declarações aponta para um modelo de organização de grupos, com pagamento por participação e permanência em território indígena, o que levanta questionamentos sobre a legalidade da prática.
O Ibama afirmou que a exploração de recursos naturais em terras indígenas é de usufruto exclusivo dos povos indígenas e que a presença de terceiros nessas atividades sem autorização configura infração ambiental e invasão de território.
Segundo o órgão, mesmo em situações excepcionais como projetos de pesca esportiva de baixo impacto com participação de não indígenas é necessária autorização formal da FUNAI e da governança indígena, que atualmente não autoriza esse tipo de atividade no Xingu.
O instituto também informou que planeja para 2026 a realização da Operação Iara, voltada ao combate à pesca predatória em terras indígenas. A ação deve incluir apreensão de equipamentos ilegais, identificação de estruturas irregulares e repressão a atividades não autorizadas.
Ainda conforme o Ibama, esse tipo de atividade pode gerar impactos ambientais significativos, como a redução dos estoques pesqueiros, a captura de espécies não alvo incluindo tartarugas e botos, além da degradação ambiental e poluição por resíduos e combustíveis.
A denúncia foi encaminhada a órgãos como a FUNAI e o Ministério Público Federal, que seguem acompanhando o caso e podem adotar medidas administrativas, ambientais ou criminais conforme o avanço das apurações.
A reportagem segue acompanhando os desdobramentos.
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Daniel Trindade
Editor-Chefe do Portal de Notícias
Ativista Social|Jornalista MTB 3354 -MT
Consultor Político
Estudante Bacharelado em Sociologia
Defensor da Causa Animal em Sinop -MT
Tutor do Stopa "O Cão Mascote"






