
De “perdi a cabeça” a “foi castigo divino”: narrativas que transformam o feminicídio em uma violência repetida contra as vítimas.
por Daniel Trindade
Os números de feminicídio em Mato Grosso são alarmantes, mas não menos chocantes são as desculpas que invariavelmente acompanham esses crimes. Quase sempre, após a prisão, o agressor repete justificativas que tentam minimizar a brutalidade: “foi um surto”, “perdi a cabeça”, “ela queria terminar”, “estava com ciúmes”. Há ainda os que recorrem ao álcool e às drogas como álibi moral, como se a substância falasse mais alto do que a escolha deliberada de tirar uma vida.
Mais grave ainda é quando a religião aparece como pano de fundo dessas justificativas. Frases como “a mulher tem que obedecer”, “ela não cumpria seu papel de esposa” ou “foi castigo de Deus” ecoam discursos de dominação travestidos de fé. São tentativas de legitimar a violência a partir de interpretações distorcidas de valores religiosos, transformando espiritualidade em arma para controlar, silenciar e, em última instância, matar.
Essas desculpas não são apenas palavras: são parte de uma cultura que naturaliza a violência contra a mulher e ainda busca transferir a culpa para a vítima, para o momento, para a bebida ou até para uma suposta ordem divina. Mas nada disso apaga o fato central: cada feminicídio é uma escolha. Uma decisão consciente de exercer poder pelo medo e pela força.
Ao reproduzir essas narrativas, o agressor mata duas vezes: primeiro a vítima, depois sua memória, ao tentar reduzir sua vida a uma justificativa covarde. É por isso que a sociedade não pode aceitar essas desculpas. O feminicídio não é acidente, não é surto, não é castigo é crime.
Como dizia Rui Barbosa, “a justiça pode irritar, a verdade pode ferir, mas só a injustiça mata.” E quando a violência contra a mulher é relativizada sob a capa de ciúme, álcool ou religião, a injustiça se multiplica.
Em um estado que bate recordes de feminicídio, não há mais espaço para desculpas que tentam suavizar o irreparável. A cada vida interrompida, fica o alerta de que o problema não é um “surto”, um “ciúme” ou um “castigo”, mas sim uma cultura de violência que insiste em sobreviver. Que a Justiça seja firme, que a sociedade seja vigilante e que a memória das vítimas não seja apagada por justificativas covardes. O silêncio e a tolerância diante dessas narrativas também matam e o preço já é alto demais para continuar sendo pago.

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Daniel Trindade
Editor-Chefe do Portal de Notícias
Ativista Social|Jornalista MTB 3354 -MT
Consultor Político
Estudante Bacharelado em Sociologia
Defensor da Causa Animal em Sinop -MT
Tutor do Stopa "O Cão Mascote"



