Infectologista Marcia Hueb reforça necessidade de imunização, já que cobertura em Mato Grosso é baixa
Em meio aos esforços para conter a propagação da Covid-19, crescem as preocupações devido à nova subvariante e à baixa cobertura vacinal em Mato Grosso. De acordo com a infectologista Marcia Hueb, esses dois fenômenos combinados têm potencial para a disseminação do vírus.
Desde o início do ano até a sexta-feira (9), foram registrados 10.600 casos da doença no Estado, com 25 mortes. Conforme a médica, a nova subvariante em circulação no Estado é considerada “de preocupação” por causa da alta capacidade de transmissão.
São consideradas variantes de preocupação aquelas, entre outros fatores, que levam a um aumento na transmissibilidade.
Hueb voltou a pedir que as pessoas se vacinem contra a doença, uma vez que Mato Grosso tem baixa cobertura vacinal.
“A vacina é segura, a gente tem que voltar a afirmar isso. Ela tem se mostrado cada vez mais segura e quem diz que a vacina foi feita muito rapidamente esquece ou desconhece que aqueles dois cientistas que criaram a vacina receberam o prêmio Nobel deste ano, em reconhecimento a isso”, disse ela.
Esses fatores somados com a chegada de uma nova subvariante de alta transmissibilidade têm preocupado as autoridades. Segundo o secretário de Estado de Saúde Gilberto Figueiredo, somente 8% da população alvo da campanha se vacinou com a bivalente.
Além desse tema, a médica também falou sobre a vacinação em crianças, cuidados durante o estágio de infecção e a dengue, doença que já fez uma vítima fatal em Mato Grosso.
Confira os principais trechos da entrevista:
O que já se sabe sobre essa nova subvariante da Covid detectada em Mato Grosso?
Marcia Hueb – É uma subvariante da Ômicron, que se chama JN2.5. É uma subvariante de preocupação pela
capacidade de disseminação que ela tem mostrado. Isso quer dizer que consegue ter algumas pequenas alterações que facilitam a transmissão de uma pessoa para outra.
Então, a doença se dissemina mais rápido. Não necessariamente a doença, a infecção pelo SARS-CoV-2. Então, ela é uma subvariante de preocupação pela disseminação e propagação. Não temos observado a mesma proporção de aumento em relação a hospitalizações e óbitos, mas é importante a gente compreender.
Existe um aumento, sim, nas hospitalizações e nos óbitos. Mas é claro que quando tem maior número de casos, também terá maior número de casos mais graves. Mas o aumento, proporcionalmente falando, de casos tem sido maior do que o aumento de óbitos, por exemplo.
Então, se a doença dissemina muito, ela se relaciona com a capacidade dessa subvariante, mas se relaciona muito mais com o fato de a cobertura vacinal ainda estar baixa. Muitas pessoas não têm o esquema de vacina completo para a Covid. Completo é ter pelo menos três, idealmente quatro doses ou até mais. A baixa cobertura vacinal é que faz com que haja essa disseminação grande, mas até o momento, vemos casos graves de pacientes de Covid hospitalizados em número maior do que tínhamos até um mês atrás, dois meses.
Há risco de os casos explodirem, já que se trata de uma variante nova?
Enquanto a cobertura vacinal não for adequada, sempre temos risco de expansão muito grande de casos. O que seria a cobertura adequada? Crianças vacinadas, adultos vacinados com três ou quatro doses, idosos ou imunocomprometidos ou populações
especiais, todas vacinadas com três ou quatro doses e já fazendo reforço esse ano, de mais uma quarta, uma quinta dose.
Lá no começo acumulamos alguma imunidade contra o vírus. Isso pela própria vacina, mesmo para quem tomou apenas uma ou duas doses. Então, alguma proteção tem, mas não é a ideal.
A gente vai convivendo mais com o vírus; ele já não é um vírus tão novo, mas é uma doença nova.
Então, ainda estamos sujeitos a um aumento maior do que o esperado, ou um aumento de caso em relação a outras épocas, toda vez que temos períodos de convivência maior, com festas como do Carnaval. Tudo isso, se não tem boa cobertura vacinal, acaba acontecendo.
Na semana passada, o secretário de Saúde Gilberto Figueiredo revelou que apenas 8% da população tomou a vacina bivalente. Onde está a falha para uma cobertura tão baixa?
Marcia Hueb – Algumas coisas aconteceram. Toda vez que a percepção de que uma doença grave existe, mas a ter menos casos
graves, a impressão que dá é que aquela vacina não é mais necessária. Então, as pessoas deixam de procurar a vacina. Existe
essa contradição, porque falta a compreensão de que pudemos ficar mais tranquilos por causa das vacinas. E isso é um fator incontestável.
Então, 8% que têm a bivalente. Significa que as pessoas acharam que não precisavam mais, e isso somado ao fato de que existem notícias falsas que circulam o tempo todo sobre vacinas que causariam mal, que vacinas seriam um experimento… Na ciência, quando a gente fala experimento, estamos falando de avaliar, testar, o que é parte disso da ciência. Mas as vacinas, quando elas chegam à população, chegam porque foram testadas suficientemente.
Então, elas têm a segurança. E nesse momento não é nem mais aqueles testes iniciais que eram para dizer que foram feitos os estudos. Hoje a gente já pode dizer que a vacina foi para o que a gente chama de fase 4, que é a distribuição para população, e continua se mostrando Quando chegou o SARS-CoV-2, já existia uma tecnologia. E isso foi responsável por nós saírmos da pandemia extremamente segura. Então, o índice ou as taxas de complicações com vacina são muito, mas muito menores do que as complicações que a doença causa.
Há muita fake news ainda?
Marcia Hueb – Sim. Inclusive, essas notícias que circulam sobre morte súbita. A pessoa pode ter morte súbita por diferentes razões, mas pode ser, inclusive, porque essa pessoa quando teve Covid ficou com sequela que predispôs a um infarto fulminante. Isso é conhecido também, que existem sequelas do ponto de vista cardiológico, neurológico. Existem várias condições. Então,
quando alguém fala que deve ter sido vacina, primeiro é o “deve”, ou seja, nem sabe. E mais, esquecem que é muito mais provável a pessoa ter essa complicação porque teve a doença do que pela vacina. É lamentável que isso aconteça.
Muitos do que não tomaram a vacina ainda temem uma suposta falta de estudos sobre os efeitos colaterais. O que tem a dizer para essas pessoas?
Eles a estudavam há dez anos, quando surgiu a primeira ameaça de pandemia pelo coronavírus 1, aquele SARS-CoV-1, que estava se disseminando rápido na Ásia e foi para o Oriente Médio, também causando uma doença grave, que era a MERS. Houve esse interesse em produzir a vacina, porque tinha uma ideia de que se viesse uma pandemia, tinha grande chance de ser ou por
um coronavírus, ou por um influenza.
Essa cientista migrou para os Estados Unidos e encontrou o outro cientista e juntos deram prosseguimento na pesquisa da vacina. Eles continuaram trabalhando e, no início da pandemia, que se se descobriu que era o SARS-Cov, já tinham aquela possibilidade. Então, isso que estão achando super rápido, tinha no mínimo dez anos de estudo. Quando chegou o SARS-CoV-2, já existia uma tecnologia. E isso foi responsável por nós saírmos da pandemia, nós estarmos onde estamos hoje, poder estar trabalhando, convivendo, fazendo reuniões com os amigos.
Tudo mundo baixou a guarda com a Covid? Acredita que as prefeituras erraram em não cancelar a folia?
Marcia Hueb – Como cidadãos, baixamos a guarda. E sinal disso é não termos ido vacinar com a bivalente, oferecida gratuitamente nos postos. Porque hoje não deveríamos mais estar discutindo se a gente precisa de máscara como método de prevenção. A gente deveria estar usando máscara quando estamos sintomático, para proteger os outros, mas não deveria estar
pensando mais nisso como a medida de evitar Covid.
Nós já passamos por esse momento, porque a gente tinha que se isolar e tinha que usar máscara, era única estratégia que a gente tinha pra evitar a Covid. Hoje, a gente tem a melhor das estratégias, que é a vacina. Então, baixamos a guarda, sofremos as consequências e continuamos sofrendo, temos que fazer grandes campanhas de convencimento, no bom sentido, de mostrar o que temos de melhor e tentar que a população se vacine.
As pessoas, principalmente as que estiveram vacinadas, as que se cuidaram, que foram responsáveis para que circulasse menos o vírus, também têm o direito de ter uma vida normal, porque foi isso que a gente procurou ter. As pessoas precisam trabalhar, se organizaram para fazer canaval, tem turismo, já tem reservas, quer dizer, a situação está posta.
Isso aumenta o risco de circulação do vírus? Aumenta. Mas vamos nos conscientizar que nós temos que estar vacinados. Eu sei que se eu me vacinar amanhã, não necessariamente vai evitar que na terça-feira de Carnaval adquira o vírus, porque é muito pouco tempo. Idealmente, deve ter 15 dias qualquer vacina de vírus, mas assim, em uma semana já vai reduzindo muito a
chance.
A senhora é contra a realização do Carnaval?
Marcia Hueb – Individualmente, acho que as pessoas podem pensar se é o melhor momento para ir se expor no Carnaval. Se a pessoa tem uma condição de risco por comorbidade, se tem mais do que 60 anos e não está adequadamente vacinada, essa pessoa tem que tomar a atitude de não ir, de não estar em contato com grandes festas. Isso deveria ser uma decisão individual, mas como
decisão coletiva, proibir as coisas, acho que estamos num momento complicado para isso.
E como fica o público infantil em meio a esse aumento de casos?
Marcia Hueb – Não podemos interpretar que é uma doença que não atinge crianças ou que não tem gravidade. Essa é uma doença que desde o início da pandemia temos quase duas centenas de crianças mortas por Covid na faixa de idade menor do que quatro anos. Hoje, das doenças preveníveis por vacina, qual é a maior taxa de óbito? É a Covid. Então, não podemos negligenciar. Se eu uso vacina para me proteger, por que não vou proteger o meu filho? Não faz sentido.
E lembrar que a criança faz circular muito vírus também. É um outro problema, porque ela vai visitar a avó, essa criança se estiver com uma doença de pouco significado, uma coriza, pode estar levando para a avó, que já tem um ano da última vacina da bivalente e pode já não estar tão protegida. Porque nesta faixa de idade, os idosos, os imunossuprimidos, falando de uma forma popular, o efeito da vacina dura menos. Essa pessoa perde a proteção mais cedo.
O que a senhora diria para as pessoas que completaram o ciclo vacinal e querem mais um reforço por conta desta nova alta no número de casos?
Marcia Hueb – Nesse momento, os postos estão ofertando a vacina bivalente. Para as crianças, já falamos que têm indicação da vacina própria para elas. A vacinação está disponível de que forma? Se já tem as quatro doses, mas tem acima de 60 anos, é quilombola, indígena ou tem comorbidade como cardiopatia grave, doença pulmonar grave, imunossupressão, tratamento de
câncer, e faz três meses da última dose, pode ir ao posto que será aplicada a vacina.
A outra população importantíssima é a que não tem o esquema vacinal completo, seja de qualquer idade. Nas outras condições, caso tenha as quatro doses e não é profissional de saúde, ainda não precisaria reforçar, mesmo tendo um ano da bivalente. Daqui um tempo, vão ser disponibilizadas também para o restante da população, mas no momento, a população alvo
são essas que citei.
É a favor de se retomar a obrigatoriedade do uso das máscaras em certos ambientes?
Marcia Hueb – O ambiente de atendimento a qualquer estabelecimento de saúde, está recomendado que se volte ao uso permanente. Então, os hospitais com internação continuaram usando, isso não tinha sido retirado. Mas, por exemplo, consultórios, ambulatórios, esses outros locais, houve um relaxamento quanto ao uso da máscara.
Então, este é um ambiente em que a máscara deve estar presente agora, de forma obrigatória. Preferencialmente, que haja a
compreensão da necessidade do uso. Isso nos ambientes de saúde, esse é o local. No mais, ambientes fechados com número maior
de pessoas, avaliação individual de risco para o uso ou não da máscara.
Quais são os sintomas mais comuns da Covid nestes novos casos que estão surgindo?
Marcia Hueb – Essa subvariante, nos últimos meses, o que a gente tem visto é que os sintomas respiratórios continuam presentes,
mas tem sido muito comum a queixa de ardência na garganta. Então, é como se tivesse uma infecção na garganta. Mas esse sintoma pode ceder em dois, três dias. Continua tendo aqueles sinais como se fosse um resfriado comum, como coriza, espirro e menos presente a inflamação na garganta.
Junto com isso, tem sido observado com bastante frequência a presença de febre, que não costuma ser muito alta e também tem uma duração pequena. E aqueles componentes que são das doenças virais como um todo, que pode ser a mialgia, aquela sensação de corpo ruim. E isso, às vezes, até precede os sintomas mais comuns.
A tosse frequente, falta de ar, febre que não passou, a mialgia evoluiu para prostração, são os sinais de agravamento que já deve estar em acompanhamento médico.
Muito tem se falado da dengue no Brasil. Por que as autoridades em saúde do País estão tão preocupadas com a dengue em 2024?
Marcia Hueb – Porque o crescimento de casos foi muito grande. Tem locais onde houve aumento de 300% a 400%. A dengue preocupa mais no verão, porque tem mais chuva e calor, duas condições que favorecem a proliferação do mosquito. E esse ano a dengue surpreendeu muito, porque desde dezembro, janeiro, mostrou índices muito maiores do que o esperado.
E isso leva ao alerta. Todo o Brasil está com a dengue em situação de preocupação. Mas tem alguns que realmente já é uma situação de alarme e por isso que houve algumas medidas voltadas para alguns estados que estão com uma preocupação maior que outros.
Como está a situação em Cuiabá? Teme uma avalanche de casos em Mato Grosso?
Marcia Hueb – Nós estamos numa situação de aumento de casos, mas não igual aqueles estados que mais aumentaram. A dengue é uma doença que o controle depende muito da atitude da população, é basicamente isso. O poder público pode contribuir com aquelas vistorias nas casas, aquele chamado fumacê, que atinge uma fase do mosquito, na promoção da educação também.
A partir do momento que estamos alertados para o risco e sabemos como evitar, a gente tem que fazer a nossa parte, que é a vigilância absoluta dos criadouros. Pode ser apartamento, casa, a gente não pode deixar acúmulo de água. Uma coisa que o poder público pode propor em situações de maior risco é a entrada em terrenos baldios, obrigar o proprietário a fazer a limpeza adequada, casas abandonadas terem entrada justificada judicialmente para limpar os criadouros do transmissor.
Além disso, nós agora começamos a ter mais uma possibilidade que essa vacina que está chegando. Nós não temos a vacina da dengue disponível no serviço público de Mato Grosso. A produção pelo laboratório fornecedor não alcança as necessidades de um país da dimensão do Brasil. Então, há uma negociação do governo brasileiro para intensificar a quantidade de doses.
A pessoa deve procurar o médico nos primeiros sintomas da dengue ou apenas se sentir algo mais grave?
Marcia Hueb – Se tem suspeita de dengue, deve procurar um serviço de saúde, mas o primeiro alerta em relação a dengue é que a pessoa deve se hidratar muito bem. Dengue não tem tratamento específico, tem orientações. Então, se hidratar muito bem usando líquidos normais, pode ser hidratação com soro, dependendo da situação, e estar atento ao uso de
medicamentos.
Todas essas doenças, como Covid e dengue, são virais, então elas têm início muito semelhante. No primeiro momento, a gente não sabe como é que vai evoluir em 6 horas, em 12 horas. Então, 1se ainda está nesse momento inicial, não deve ser feito uso de antinflamatórios.
Algumas pessoas confundem com antitérmico, utilizado para baixar febre. Se a febre tiver acima de 38º C, usar antitérmico como paracetamol, dipirona. Os outros que são antinflamatórios não são os primeiros medicamentos a serem usados em quadros febris. Tem primeiro sinal de uma doença febril, hidratar bem, fazer um repouso, observar a evolução nas próximas horas e se for necessário usar o antitérmico. A gente sabe como lidar com o resfriado comum, todos nós sabemos. Se for mais intenso, deve procurar assistência e faça o teste.
O que a senhora pode dizer sobre a dengue hemorrágica?
Marcia Hueb – A dengue hemorrágica é um quadro que pode surgir no desenvolvimento da dengue. O que a pessoa pode fazer é observar. Idealmente, ela deveria ter um primeiro atendimento médico. Se ela tiver sintomas um pouco mais intensos, já vai ter os exames realizados, como o diagnóstico da dengue, hemograma, avaliação mais simples, mas que já vai dar parâmetro sobre o caso.
A dengue não abre o quadro com uma dengue hemorrágica. Então, o que importa é fazer o acompanhamento. E quando eu digo isso, é a observação tanto do serviço de saúde, quando necessário, quanto a observação individual. Se eu tinha um quadro, em dois, três dias parecia estar melhorando, mas voltou a piorar, ficou prostrado, febre alta, deve-se procurar atendimento
de imediato.
Qualquer surgimento, por exemplo, daquela vermelhidão nos primeiros dias, chamado eczema, que coça muito, faz parte do quadro comum da dengue.
Agora, aparecendo aqueles pontos que não desaparecem, esses são pontos hemorrágicos, mas normalmente já deveria estar em assistência antes de observar isso. Sangramento gengival, qualquer sangramento, é sinal de alerta e a pessoa tem que levar de imediato para a assistência.
Fonte: MídiaNews
Daniel Trindade
Editor-Chefe do Portal de Notícias
Ativista Social|Jornalista MTB 3354 -MT
Consultor Político
Estudante Bacharelado em Sociologia
Defensor da Causa Animal em Sinop -MT
Tutor do Stopa "O Cão Mascote"






