Marcos Vergeiro/Secom
Análise aponta risco econômico com mudança na Moratória da Soja
Um estudo técnico apresentado ao Supremo Tribunal Federal (STF) acendeu um alerta sobre os riscos econômicos do enfraquecimento da Moratória da Soja. Segundo a análise, a entrada em vigor de uma lei de Mato Grosso que fragiliza o compromisso de “desmatamento zero” pode gerar perdas bilionárias, queda do PIB, redução de salários e perda de mercados internacionais, com impacto direto sobre o Estado.
Os dados foram levados ao STF pelo Instituto Centro de Vida (ICV) e pelo Observatório Socioambiental de Mato Grosso (Observa/MT), que atuam como “Amici Curiae” em ação que questiona a constitucionalidade do artigo 2º da Lei estadual nº 12.709/2024. As entidades defendem a manutenção da suspensão da norma, que experiu em 1º de janeiro.
O estudo foi elaborado pelo Instituto para Governança Territorial e Políticas Públicas (IGPP), sob coordenação de professor da ESALQ/USP, e analisa os efeitos econômicos do possível fim da Moratória da Soja até 2035. O trabalho conclui que a perda de credibilidade ambiental do Brasil não seria compensada por ganhos de produção.
Segundo a pesquisa, apenas a expectativa de enfraquecimento das regras ambientais já seria suficiente para elevar exigências de certificação nos principais mercados compradores, especialmente na União Europeia. Isso resultaria em aumento estimado de 5% a 6% nos custos operacionais da soja e de seus derivados.
O estudo aponta que, sem a Moratória, produtores teriam de assumir individualmente custos hoje diluídos de forma coletiva, como rastreabilidade e garantias ambientais. Na prática, a Moratória funciona como um ativo reputacional do agronegócio brasileiro, reconhecido internacionalmente.
Em um dos cenários analisados, a soja brasileira perderia espaço em mercados que pagam mais por critérios socioambientais e passaria a ser direcionada principalmente à Ásia. O problema é que esses mercados oferecem preços mais baixos, além de custos logísticos maiores, o que representa perda real de valor, e não simples redirecionamento comercial.
Impacto maior em Mato Grosso
Os efeitos seriam ainda mais severos em Mato Grosso, principal produtor de soja do país. O estudo projeta uma possível retração de até 0,24% do PIB estadual, além de redução da massa salarial, do consumo das famílias e impacto mais intenso sobre trabalhadores de qualificação intermediária.
“Os impactos macroeconômicos projetados reforçam o caráter sistêmico do risco. Em todos os cenários, verifica-se redução do Produto Interno Bruto real nacional, estimada entre 0,01% e 0,02% até 2035, o que, embora possa parecer marginal em termos percentuais, revela-se significativo quando associado a um único vetor normativo. No plano regional, os efeitos são ainda mais expressivos, especialmente no Estado de Mato Grosso, cuja estrutura produtiva apresenta elevada dependência do complexo soja. A retração projetada do PIB regional, que pode alcançar até 0,24%, evidencia que os custos econômicos da perda reputacional se concentram justamente nas regiões mais expostas à dinâmica do comércio internacional”, diz trecho da manifestação apresentada pelas entidades.
Mesmo com eventual substituição por culturas como milho, algodão ou cana-de-açúcar, a análise conclui que a renda perdida não seria totalmente recomposta.
Com base nesses dados, as entidades pedem ao STF que mantenha a suspensão da lei por prazo adicional, permitindo negociação institucional e evitando um efeito em cadeia que poderia comprometer a posição do Brasil no comércio internacional de commodities agrícolas.
Para o ICV e o Observa/MT, a suspensão não é apenas uma medida cautelar ambiental, mas uma decisão estratégica para evitar danos econômicos previsíveis, quantificáveis e de difícil reversão, sobretudo para Mato Grosso.
A decisão final sobre o tema ainda será analisada pelo Supremo.
Lucione Nazareth/VGNJur

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