
Partido que hoje abriga Bolsonaro já integrou governos Lula e Dilma e nasceu como legenda de centro pragmática.
por Daniel Trindade
O recente processo de radicalização de parte da militância bolsonarista contrasta com a própria história do Partido Liberal (PL), legenda que hoje abriga Jair Bolsonaro e concentra a maior bancada conservadora do Congresso. Embora atualmente seja apresentado como símbolo da direita ideológica, o PL nasceu como partido centrista e sempre teve atuação pragmática inclusive participando de governos de esquerda.
O exemplo mais emblemático desse passado é a eleição de 2002. Naquele ano, Lula chegou ao poder tendo como vice não um aliado histórico do PT, mas José Alencar, empresário filiado ao PL e escolhido justamente para sinalizar moderação e ampliar pontes com o setor produtivo. A parceria funcionou tão bem que se repetiu em 2006, consolidando oito anos de convivência política entre o PT e o então Partido Liberal. O comando do PL, inclusive, participou ativamente da articulação para que a chapa Lula-Alencar se viabilizasse.
Em 2006, o partido mudou de nome ao se unir ao PRONA e se transformar no Partido da República (PR). Durante esse período, manteve-se aliado dos governos Lula e Dilma, ocupando ministérios e cargos estratégicos, característica típica de partidos de centro pragmático. Apenas anos mais tarde, já na fase final do governo Dilma, ocorreu o afastamento que desembocou em uma reconfiguração interna da sigla.
Em 2019, o PR voltou a usar o nome PL, já buscando renovar sua imagem diante do novo cenário político. A chegada de Jair Bolsonaro ao partido, em 2021, reposicionou novamente a legenda, desta vez como núcleo da direita conservadora. No entanto, essa guinada recente não apaga o histórico de alianças anteriores especialmente com o próprio Lula, a quem boa parte da militância atual identifica como inimigo político.
Essa trajetória evidencia que a política brasileira sempre foi marcada por alianças flexíveis e rearranjos estratégicos, distantes das narrativas absolutas que parte da extrema direita tenta sustentar nas redes sociais. Ao ignorar capítulos inteiros da história do partido que hoje abraçam, setores mais radicais acabam construindo uma leitura seletiva do passado, desconectada das decisões e alianças que moldaram o próprio PL.
Lembrar esses fatos não é questionar o direito de o partido assumir uma posição conservadora, mas destacar que sua identidade sempre foi moldada por circunstâncias políticas e não por compromissos ideológicos rígidos. Em um cenário de acirramentos e discursos polarizados, revisitar esse passado é essencial para entender que nenhuma legenda nasce pronta e que a política brasileira se move muito mais por pragmatismo do que por dogmas.
Relembre a história do PL
1985 – Fundação do Partido Liberal (PL)
Criado ainda na Nova República, o PL nasce como um partido de centro-direita moderada, liberal na economia e pragmático nas alianças.
Década de 1990 – PL como partido do Centrão
No governo Collor e na gestão FHC, o PL atua como partido de apoio no Congresso, integrando o bloco chamado Centrão — alinhando-se conforme interesses regionais.
2002 – O PL se alia ao PT e elege o vice-presidente de Lula
➡️ José Alencar, filiado ao PL, torna-se vice-presidente de Lula.
Foi a maior aliança já feita entre centro-direita e esquerda na política moderna brasileira.
Ou seja: Bolsonaro chama o PT de “inimigo”, mas o PL governou junto com Lula por dois mandatos.
2010 – O PL deixa o cenário nacional
O partido perde força eleitoral e negocia fusão para se manter competitivo.
2006–2010 – Fusão: PL + PRONA → nasce o PR
O Partido Liberal (PL) e o PRONA de Enéas Carneiro se fundem e criam o Partido da República (PR).
O PR continua a tradição do PL: fisiológico, pragmático, aliado do governo de turno.
2006–2016 – PR apoia Lula e Dilma
O PR (ex-PL):
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Apoia Lula de 2003 a 2010;
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Apoia Dilma de 2011 até a ruptura do impeachment;
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Ocupa Ministérios nos dois governos.
É nesse período que Valdemar Costa Neto, líder histórico do PL/PR, torna-se um dos articuladores mais influentes do Congresso — sempre ao lado do governo federal, seja ele de esquerda ou centro-esquerda.
2018 – PR se aproxima de Bolsonaro
O PR não entra na chapa Bolsonaro, mas passa a integrar sua base no Congresso.
2019 – PR muda o nome e volta a se chamar PL
O Partido da República decide abandonar a sigla PR (marcada por escândalos e fisiologismo) e retoma o nome PL.
2021 – Bolsonaro se filia ao PL
A entrada de Bolsonaro transforma a identidade do partido, reposicionando-o como legenda da direita conservadora.
Mas isso não apaga que:
➡️ O PL governou 8 anos com Lula, 6 com Dilma e só depois virou o principal partido do bolsonarismo.

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Daniel Trindade
Editor-Chefe do Portal de Notícias
Ativista Social|Jornalista MTB 3354 -MT
Consultor Político
Estudante Bacharelado em Sociologia
Defensor da Causa Animal em Sinop -MT
Tutor do Stopa "O Cão Mascote"






