
Uma história de madrugada, o táxi e os invisíveis
Três horas da manhã de domingo. Horário em que o mundo dorme, os pensamentos ficam mais altos e a fé costuma ser convocada sem cerimônia. Fui ao aeroporto para acompanhar meu filho no voo das quatro. Tudo dentro do previsto, até não estar.
O aeroporto era o único ponto iluminado naquela imensidão escura que é Várzea Grande de madrugada. Ao redor, um breu absoluto, daqueles que parecem engolir a gente. Meu filho, inquieto, observava o entorno com desconfiança. Disse que iria para a sala de embarque e de lá, chamaria um carro por aplicativo, assim ficaria mais tranquilo. Falei que não seria necessário e que ficaria dentro do aeroporto esperando a circulação dos ônibus urbanos, por volta das 5 horas.
Nada disso, ele retrucou. Preferia a logística moderna: chamaria um Uber, avisaria que eu estava na “área verde”, aquele território neutro onde aplicativos e esperanças se encontram. Tentou. Tentou de novo. Nada. Mandou dinheiro, ligou e decretou: “Pega um táxi.” Três vezes mais caro, claro. Mas de madrugada não se negocia.
Foi aí que o celular caiu. Tela quebrada e a comunicação interrompida. Desespero instalado.
O guichê da cooperativa de táxi estava fechado. Madrugada também fecha portas. Quando já ensaiava voltar para dentro do aeroporto e reconsiderar a vida, um motorista da cooperativa se aproximou. Aceitou cartão, topou desconto. Entrei no carro achando que o pior tinha passado. Não tinha.
O cartão não estava na bolsa. Nem no bolso. Nem em lugar nenhum. A ponte entre Cuiabá e VG avançava, e a mente corria mais rápido que o carro: explicações, desconfianças, polícia, delegacia às quatro da manhã por causa de um cartão de débito sumido.
A bolsa foi revirada com método, depois com desespero. Nada. A mente, então, entrou em modo tribunal. E agora? Deve estar em casa. E se não estiver em casa como faço? Explico e peço para que ele volte no dia seguinte.
Mas e se ele achar que é golpe? E se chamar a polícia? E se a gente acabar numa delegacia, eu sem nenhum contato dos filhos – saudade da agenda física, às quatro da manhã por causa de um cartão de débito rebelde?
Não dava tempo de avisar o motorista. Ele já ligava a maquininha. Foi aí que comecei a rezar. Não foi oração organizada. Foi uma convocação geral. Santos conhecidos, outros esquecidos, pedidos atravessados. Onde faltava catecismo, entrava intuição. Quando os santos hesitavam, outras forças se ofereciam.
Rezei como quem corre contra o relógio. A fé, em situação-limite, vira mutirão: quem puder, ajude. Ave-Maria, Pai-Nosso. Mentalizava nomes enquanto o carro avançava. Santo Antônio apareceu, depois São Judas Tadeu, especialista em causas difíceis e até São Longuinho. Em algum momento, sem cerimônia nem teologia, entraram orixás, exus prestativos, pretos velhos, entidades solidárias. A fé, quando aperta, não pede documento nem filiação religiosa. Aceita ajuda.
Acho que rezei um terço inteiro entre o aeroporto e a avenida da Prainha. Subindo a Mato Grosso já estava no Credo e pensando na Salve-Rainha. Final de campeonato espiritual.
O carro parou na porta e disse ao motorista que precisava pegar o cartão dentro de casa. Deixei a porta aberta, gesto de quem não tem nada a esconder e tudo a provar.
Entrei já rezando o Anjo da Guarda, foi então que meu cachorro, um pastor belga, resolveu cumprir sua função ancestral: latir como se estivesse defendendo um forte medieval. Pensei: pronto, agora acabou. O motorista vai achar que isso é uma emboscada cuidadosamente ensaiada às três da manhã.
Entrei rápido e lá estava o cartão. Sobre a estante. Na sala de livros. Intacto. Pacífico me esperando.
Voltei. Paguei. Agradeci exageradamente, como quem sobreviveu a um naufrágio logístico-espiritual. O motorista, chamado Edson, sorriu sem entender, provavelmente nem imaginou que naquela corrida tinham viajado santos católicos, entidades afro-brasileiras, um anjo da guarda muito suado e uma mulher à beira de um colapso civil.
Depois, foi engraçado. Naquele momento, foi sério. Porque às três da manhã, definitivamente, ninguém viaja sozinho.
Artigo escrito por Fátima Lessa é jornalista. Mestra em Política Social. Colabora com o site EhFonte. Escreve como freelancer no jornal O Estado de S. Paulo. Já trabalhou na Folha de S. Paulo.

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Daniel Trindade
Editor-Chefe do Portal de Notícias
Ativista Social|Jornalista MTB 3354 -MT
Consultor Político
Estudante Bacharelado em Sociologia
Defensor da Causa Animal em Sinop -MT
Tutor do Stopa "O Cão Mascote"






