É preciso lembrar das atrocidades a fim de não reproduzi-las
Nos cruentos dias que vivemos, à vista de todo o mundo o tempo todo, a famigerada disputa de narrativas tem se apresentado, paradoxalmente, como único ponto de convergência. Quem fala a verdade, de que lado se posiciona o veículo de imprensa, o autor, analista ou comentarista. Hoje, o que de fato ocorre no Oriente Médio, na guerra entre Israel e Hamas, é multifacetado e fragmentado.
Um dos indícios a ser considerado é o verbete “2023 Israel-Hamas war” na Wikipedia, que já ultrapassou milhares de reedições e edições desde a primeira eclosão do evento, em 7 de outubro de 2023. Em pouco mais de duas semanas, registravam-se 798 referências. Até o nome do conflito é motivo de enfrentamentos: se seria uma guerra provocada ou contra o Hamas, não contra a Palestina.
A contagem de vítimas da guerra é mais um ponto de dissentimento: enquanto Israel utiliza imagens de valas, os palestinos contabilizam 8 mil mortos. Todo o contexto de incerteza sobre o número e da identidade das pessoas vitimadas impede que elas tenham suas histórias pessoais devidamente lembradas e preservadas. O site Inumeráveis, memorial virtual dedicado às vítimas do coronavírus no Brasil, é um exemplo de iniciativa coletiva com o potencial de contribuir para a institucionalização da memória cultural sobre um evento adverso.
A tênue fronteira entre fake e real encontra mais um exemplo na notícia de que o Hamas teria decapitado 40 bebês israelenses. A narrativa que tomou as redes sociais e os veículos de imprensa de todo o mundo chegou até Joe Biden, presidente norte-americano, que durante discurso afirmou ter tido acesso a imagens “confirmadas” de terroristas do Hamas decapitando bebês. Entretanto, horas depois da fala, funcionários do governo disseram que ele se baseou em notícias e falas de autoridades israelenses, acrescentando que nem a Casa Branca nem o presidente confirmaram o episódio de forma independente.
Esta avalanche de imagens e informações multiplica-se em turbilhão de desinformações, fake news e desmentidos, constituindo um noticiário repleto de contestações de autoridades, porta-vozes e pedidos de renúncia, o que nos leva a indagar acerca do que é crível e o que subsistirá para documentar como registro histórico e memória coletiva no futuro.
Ao evocar em magnitude a percepção da Segunda Guerra pelos brasileiros para uma ligeira comparação histórica, a evolução tecnológica ocupa o primeiro plano. Era o tempo dos cadernos de anotação dos soldados, dos primórdios da TV e do rádio, então mídia onipresente. No século 20, não se percebia no Brasil com sensação de proximidade física o choque mundial, que nos chegava pela cobertura da imprensa e fotografias estampando as capas de jornais no dia seguinte. As consequências econômicas da guerra se concretizavam ao longo do tempo, escalonadas dia a dia, mês a mês, ano após ano.
Hoje o impacto é imediato e sentido globalmente nas cotações do petróleo, do câmbio e das commodities, sobretudo no cenário de dois conflitos simultâneos, uma vez que Rússia e Ucrânia seguem em confronto. Para citar a amplificação gradual da transmissão das guerras em tempo real, lembremos a Guerra do Golfo, no início dos anos 1990, os atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos, a invasão do Iraque e a própria pandemia de covid-19, por sua característica ubíqua.
Para o historiador interessado na construção de uma cultura de preservação da memória coletiva, o confronto atual e suas reverberações midiáticas trazem à tona o desafio ético que contrapõe a lógica jurídica ao imediatismo, derivado da interpretação instantânea, profusão de imagens e informação amalgamada à desinformação.
Na democracia, garantir a responsabilização futura por eventuais crimes cometidos num conflito é uma das funções primordiais da preservação dos documentos históricos – aferidos e certificados. Portanto, torna-se crucial fomentar, no contexto educacional, uma espécie de alfabetização digital acessível às diversas camadas e faixas etárias da população, com foco nos jovens e idosos.
O objetivo é evitar – ou ao menos mitigar – os efeitos da desinformação na vida das pessoas, seus relacionamentos, reações extremadas, identificações ideológicas baseadas em fake news e medo. Para tanto, é importante que os cidadãos sejam capazes de formar o próprio discernimento e associar seu entendimento a fatos e evidências, não necessariamente dependendo de sites de verificação, por exemplo, mas educando o próprio olhar e possibilitando uma interpretação mais criteriosa do contexto à sua volta.
Em São Paulo, como guardião da documentação sobre políticas públicas, programas, planos, ações administrativas, jurídicas e econômico-financeiras, o Estado cumpre o princípio constitucional da responsabilidade. Nesse escopo, conta com o Arquivo Público, com o apoio das universidades estaduais, que cooperam na missão de preservar o acervo e atuar como um manancial da memória coletiva, para além das bibliotecas, dispondo de bancos de dados digitalizados e metadados. Assim, o registro histórico desempenha, também, a função de proteger a democracia. É preciso lembrar das atrocidades a fim de não reproduzi-las.
Por Thiago Nicodemo – Estadão
Daniel Trindade
Editor-Chefe do Portal de Notícias
Ativista Social|Jornalista MTB 3354 -MT
Consultor Político
Estudante Bacharelado em Sociologia
Defensor da Causa Animal em Sinop -MT
Tutor do Stopa "O Cão Mascote"






